Locomoção

Estudo traça perfil do ciclista em Pelotas

Homens pertencentes à classe trabalhadora são maioria entre os que utilizam a bicicleta na cidade, revela pesquisa da UFPel

Jô Folha -

Pelotas possui 51 quilômetros de ciclovias e ciclofaixas, segundo a Secretaria Municipal de Transporte e Trânsito (SMTT). Diariamente, centenas de ciclistas circulam por estes espaços, faça chuva ou faça sol. Para entender melhor o perfil, as motivações e dificuldades deste público que utiliza o sistema cicloviário da cidade, o pesquisador Italo Guimarães finalizou um estudo que observou um total de 8.732 viagens e entrevistou mais de 841 ciclistas; a dissertação de mestrado foi apresentada no final de julho, realizada no Programa de Pós-Graduação em Educação Física da Escola Superior de Educação Física da Universidade Federal de Pelotas (Esef/UFPel).

A partir das entrevistas, um perfil sociodemográfico pôde ser traçado: a maior parte dos ciclistas é homem, com idades entre 15 e 29 anos. Conforme explicou Guimarães, grande parte dos usuários das ciclovias e ciclofaixas pertence à classe trabalhadora que dirige rumo ao posto de trabalho, principalmente aqueles da construção civil (25,4%), seguidos por trabalhadores da prestação de serviços e do comércio (22,0%) e estudantes (14,9%).

Dos desafios que este público enfrenta quando sai de casa, a principal queixa é a falta de ligação entre as pistas que compõem o sistema cicloviário de Pelotas. Para muitos, as ciclovias e ciclofaixas aparecem em apenas uma parte do percurso, isso ocorre com a maioria dos entrevistados, moradores do bairro Três Vendas. O acadêmico ressaltou que a avenida Fernando Osório, por exemplo, possui a segunda mais extensa ciclovia no perímetro urbano da cidade - ficando atrás apenas da ciclofaixa que une o Areal ao Laranjal - e, dentro dos bairros que a cercam, não há vias exclusivas. “Se a maior parte dos usuários é da classe trabalhadora, de onde eles vêm? Por isso é preciso que haja uma conexão entre as ciclovias e ciclofaixas”, explicou.

Um olhar específico para esses espaços é essencial, principalmente durante a pandemia da Covid-19, uma vez que a utilização de bicicletas tem potencial para evitar grandes aglomerações. “Estamos enfrentando uma alta curva de contágio e no Brasil, a população mais atingida são as de classe social mais baixas, que dependem do transporte público coletivo. A bicicleta é uma possível solução para evitar essas aglomerações de pessoas dentro dos veículos. Quem está limitado a isso, é quem mais está precisando se locomover”, destacou o pesquisador. Esses avanços, adicionados a questões de iluminação e segurança, relatados pelos entrevistados, podem favorecer também que mais pessoas possam adotar a bicicleta em seus deslocamentos a trabalho e lazer.

Além disso, outra barreira cotidiana para os ciclistas é a estrutura física das vias, que ficam priores em dias de chuva. “As diferenças climáticas são uma grande barreira, não somente pelo problema de se molhar. O que apontaram os entrevistados do estudos são as ruas que ficam alagadas”, frisou Guimarães.

Dias de chuva são sinônimo de insegurança

Há mais de dez anos, Leandro Karam, responsável pela Pedal Curticeira, transita de bike pelas ruas de Pelotas. Para ele, os dias de chuva são os piores momentos para utilizar as ciclovias e ciclofaixas da cidade. “Em dia de chuva é muito ruim. As poças invadem a metade ou até mesmo toda a ciclofaixa. A da rua Professor Araújo é a pior delas”, destacou. Além dessa, as faixas próximas ao Shopping Pelotas, na ida ao Laranjal e na rua Andrade Neves também são exemplos de locais repletos por poças d’água em dias chuvosos.

Outro problema frequente são os desníveis nas vias, problema comum nos arredores da Praça 20 de Setembro. “Quem não tem uma bike com amortecedor, acaba virando uma britadeira”, brincou. Ele acredita que a forma como o sistema cicloviário em Pelotas foi pensado é a raiz do problema, uma vez que as obras que deram início às ciclovias e faixas não levaram em consideração a usabilidade por parte da população ciclista. “A cidade só começou a pensar a questão do sistema cicloviário na visão do ciclista há pouco tempo”, ressaltou.

O problema das vias que não se conectam é uma realidade também para Rodrigo Leitzke, que trabalha em uma cafeteria no Centro da cidade. “Geralmente opto pelas ciclofaixas, mas como elas não têm uma conexão entre si, muitas vezes a gente tem que se arriscar no meio do trânsito dos carros”, contou. Ele utiliza a bicicleta como principal meio de locomoção e, além da falta de conexão dos trajetos, outro problema frequente é a falta de respeito dos motoristas, que muitas vezes estacionam nas vias destinadas exclusivamente aos pedestres.

Responsável pelo estudo, Italo Guimarães afirmou que o trabalho será encaminhado à SMTT, para servir de base frente as futuras decisões do Poder Público relacionadas ao sistema cicloviário de Pelotas. “Essa é a parte mais importante do estudo: dar voz à essas pessoas que tanto falaram com a gente”, finalizou o pós-graduado.

Novas pistas a caminho

Em contato com o Diário Popular, o secretário Municipal de Transporte e Trânsito, Flávio Al Alam ressaltou a importância da malha cicloviária de Pelotas e informou que, muito em breve, novos quilômetros de ciclos serão incluídos. “A nossa malha cicloviária é maravilhosa. Existem alguns problemas, claro, mas que bom que nós temos uma grande extensão de ciclovias e ciclofaixas”, frisou.

Atualmente, equipes de trabalho estão atuando para a construção de ciclofaixas nas ruas Marechal Floriano e Mário Peiruque. Esta última será responsável por ligar, por meio das ciclos, as avenidas Salgado Filho e República do Líbano aos bairros da região, como o Bom Jesus. O secretário admite a falta de pistas exclusivas aos ciclistas nos bairros da cidade. “Precisamos começar a entrar dentro dos bairros. No momento, dá pra atravessar a cidade de um lado a outro por meio das ciclovias e ciclofaixas, mas ainda sim faltam essas localidades”, admite.

Deve começar nos próximos meses uma obra de construção de ciclovia na Ildefonso Simões Lopes, entre a Salgado Filho e a Leopoldo Brod - a obra já passou pelo processo de licitação. Ainda, Al Alam reconhece os problemas estruturais como o acumulo de poças d’água em dias de chuva e a falta de sinalização. Para isto, a SMTT pretende ter um setor próprio focado na resolução destes contratempos.

Método de pesquisa

A pesquisa foi dividida em duas etapas. A primeira se estendeu por 16 dias, em novembro e dezembro do último ano. Das 8h às 20h, a equipe abordou ciclistas em pontos estratégicos, próximos as ciclos e de maneira randômica (a cada 10 ciclistas, um era convidado a responder as perguntas). A última parte do estudo envolveu os relatos do cotidiano e motivações para o uso das bikes, a partir de nove entrevistados. O trabalho foi apresentado no último dia 31.

Perfil do ciclista pelotense

82% são homens
Possuem entre 15 e 29 anos
A grande maioria reside no bairro Três Vendas, seguido por Areal e Fragata
São trabalhadores da construção civil (25,4%), dos serviços e comércio (22%) e estudantes (14,9%)
O menor fluxo de bikes é no Centro, local onde a prática destina-se ao lazer

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